Divirta-se

De bem com o computador

© Tetiana Kolinko
© Tetiana Kolinko

O mundo virtual lhe faz medo, o computador parece um bicho de sete cabeças? Fique à vontade, você não é único, nem pertence a uma raça em extinção. Muitos adultos tem essa sensação, que hoje já recebeu um nome: ciberfobia.

E, ainda, suprema humilhação, seus netos, mal saídos das fraldas, usam o computador com mais naturalidade do que manejam o lápis e o papel? Querer comparar-se a eles é covardia, essa geração já nasceu em um mundo onde novas tecnologias fazem parte do dia a dia, como a televisão e a geladeira. Mas, console-se, o mundo virtual é hiper democrático, nele há espaço para todos e o número de pessoas mais velhas que o frequentam é cada vez maior. Basta ver a quantidade de cursos de informática voltados a sua faixa etária – num desses você estaria entre gente que fala a sua língua (e ainda não domina aquele idioma estranho com verbos como deletar, inicializar…), tem o mesmo ritmo de aprendizado e as mesmas dificuldades. E quais são elas? Professora do curso de Informática da Universidade Aberta à Maturidade da PUC/SP, a autora do livro ‘Terceira Idade e Informática: aprender revelando potencialidades’ (Editora Cortez, 2003), Vitória Kachar diz que a dificuldade inicial do aluno é dominar o mouse, deslocar o cursor na tela na direção do objetivo a ser ‘clicado’. “Por essa razão, começo as aulas com o programa de desenho Paint, isso contribui para o exercício da coordenação visomotora no domínio do mouse. E também, possibilita diminuir as tensões iniciais, criando um ambiente lúdico e menos ameaçador, ao mesmo tempo, em que o aluno se familiariza com a linguagem dos ícones e menus”, diz Vitória, que também é Mestre e doutora em Educação pela PUC/SP. A dificuldade em lidar com o mouse e coordenar seus movimentos costuma ser agravada pela vergonha em mostrar inabilidade na frente dos outros. “Muitos afirmam que gostam de ter aulas particulares em casa, justamente para evitar o constrangimento de expor a falta de coordenação motora”, lembra a jornalista Maria Ligia Pagenotto, Mestranda em Gerontologia pela PUC/SP. Para ela, a solução é treino, muito treino: “Com o tempo, os idosos relatam que a coordenação em todas a áreas se tornou melhor do que antes.. E devem isso ao uso do computador”, garante.

Perseverança é outra qualidade exigida para seguir em frente. Vitória Kachar conta que no início do curso muita gente demora para aprender o significado de alguns dos ícones da barra de ferramentas: “É tudo diminuto na tela do computador e são muitas informações, sendo difícil discriminar e localizar o recurso/ícone. Além disso, tudo é muito virtual. Aparecem muitas janelas a um leve toque e não sabem como aconteceu. Quando rola página ou surge a tela de descanso é como se tudo tivesse sumido ou apagado. Mas todas essas questões são superadas gradativamente, com paciência, exercício, repetição e explicações esclarecedoras,” tranquiliza a professora.

Superados os primeiros obstáculos – e o que não é difícil no começo de um curso? – as recompensas se revelam. Lígia Pagenotto destaca o ganho da memória. “O aprendizado da informática, como qualquer outro, exige do cérebro interesse, concentração e esforço. Esse interesse constante por aprender algo é muito importante para manter o cérebro ativo, distante de depressões, que são um caminho que pode levar à perda de memória e a outras doenças”.

O aprendizado da informática, como qualquer outro, exige do cérebro interesse, concentração e esforço.

Entrada no mundo virtual

Pessoas maduras costumam buscar um curso de informática para deixar de se sentirem excluídas do processo de transformação social e tecnológica. “Elas querem entender essa linguagem da qual todos falam e utilizam no seu dia a dia. E mostrar que são capazes de dominar um recurso sofisticado como o computador e que têm potencial para aprender muitas coisas”, afirma Vitória Kachar. Quando ultrapassam a barreira inicial abre-se um leque de oportunidades. “Há relatos de pessoas que, estimuladas pela tecnologia, têm organizado receitas de família e escrito suas memórias. Outras, buscam o computador para poder se relacionar com filhos ou parentes que moram distantes. Dessa forma, aprendem a mandar e-mails, possuem webcam, MSN e conta no orkut. Outros relatos de interesses desta faixa etária são a busca de informações sobre assuntos de que gostam, a leitura de notícias e a procura por jogos que estimulam a memória e a coordenação motora. Também há muitos idosos que ainda desempenham atividades profissionais. Esses, em geral, procuram aprender a manusear bem o computador em prol do próprio trabalho e como forma de não ficarem atrás de outros profissionais”, conta a Mestranda em Gerontologia Lígia Pagenotto.

Neste ciberespaço há lugares de encontros, trocas de informação, relacionamentos, interesses variados.

Se tudo isto ainda não o animou a aprender informática, veja o que a professora Vitória Kachar tem a dizer sobre o curso da PUC, em São Paulo: “As aulas seguem um currículo a ser trabalhado – formatação em processador de textos (word), pesquisa na internet em sites de busca ou específicos, criação de endereço eletrônico e troca de e-mails (com anexo) e, elaboração de slides com programa de apresentação de multimídia (power point)”. Esta é a parte técnica, mas a partir daí, começa o melhor. “É fundamental desenvolver atividades nas aulas de informática que sejam significativas para os alunos”, diz Vitória. “Uma proposta pedagógica é a leitura, reflexão e auto-reflexão, propiciando a produção e o desenvolvimento de textos de resgate de memórias e lembranças, que são compartilhados coletivamente nas aulas, e dependendo, são encaminhados para o Jornal Maturidades. “E dessa abordagem surgiu o projeto de jornal na Internet elaborado por professores e alunos, atualmente, no endereço: 
www.pucsp.br/maturidades. “Desta forma, o computador se torna um meio para a criação e integração entre os alunos da Universidade Aberta à Maturidade”, conta a professora.

O mundo virtual está aí, aberto para você, basta um pequeno passo para nele entrar e provar seu gostinho. “Neste ciberespaço há lugares de encontros, trocas de informação, relacionamentos, interesses variados”, instiga Lígia Pagenotto, que vê a inclusão digital como “um caminho para a sociabilidade assim como o são outros espaços hoje já consagrados: bailes, clubes, excursões. É um excelente antídoto contra o tédio pois um mundo de coisas novas para aprender se abre com o computador. Pela internet, o idoso vai poder se relacionar com parentes e amigos ou pessoas de sua cultura, que hoje vivem distantes geograficamente. Também vai sentir-se mais inserido na sociedade, cidadão e alguém respeitado. Com a melhora da auto-estima até a saúde melhora”, conclui ela.

Publicado originalmente na edição 1 impressa do Guia da 3a Idade

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Guia da 3a Idade

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